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"Senhores do Crime", grande filme de Cronenberg

Nikolai (Viggo Mortensen), como bom russo, não dispensa sua Stoli. Foto: divulgação.
Atrás do balcão de uma farmácia em Trafalgar Square, Londres, um imigrante indiano atende a uma cliente. Ato contínuo, uma adolescente trôpega e descalça entra na farmácia. Vai até o balcão e pede ajuda. Tomando-a por uma junkie, o homem responde que, para comprar Metadona, é preciso receita. A câmera mostra seus pés nus e uma poça de sangue se formando. A jovem desmaia. E assim começa “Senhores do Crime" (Eastern Promises), o mais recente filme da lavra de David Cronenberg. Noutra cena, um velho barbeiro conversa em russo com seu cliente. Entra um garoto, perturbado e estranho. Poucas frases depois, o barbeiro passa a navalha ao garoto, que rasga a garganta do infeliz sentado na cadeira, exemplificando a maneira empregada pela máfia russa para resolver suas questões.
Cronenberg escapa com maestria dos clichês de um gênero elevado ao status de arte pelos poderosos chefões de Coppola. Posso estar enganado, mas creio que o diretor canadense está imprimindo um novo rumo ao seu trabalho. O fascínio pelo bizarro e o grotesco talvez o tenha levado ao estudo dos descaminhos da alma humana, particularmente os estados mais extremados. Esta guinada teve início com “Marcas da Violência”, de 2005. O título original, Eastern Promises, ou Promessas do Leste, se refere, entre outras interpretações, aos mundos e fundos (mais fundos do que mundos, a bem da verdade) prometidos às belas moçoilas da Europa Oriental que, ao chegarem aos Estados Unidos e a outros países europeus, são confinadas e passam a viver como prostitutas.
O roteiro, enxuto e bem costurado, faz os minutos passarem voando. As atuações impecáveis conferem uma tremenda humanidade e verossimilhança aos personagens. No Oscar, a obra foi eclipsada por “Onde os Fracos Não Têm Vez”, outro grande filme. Contudo, merecia mais que a indicação de Viggo Mortensen na categoria de melhor ator. Mortensen, aliás, repete a parceria com Cronenberg iniciada no anterior “Marcas da Violência”. O site imdb.com informa que o ator passou semanas viajando sozinho, sem intérprete, dirigindo por Moscou, São Petersburgo e os Montes Urais para aprimorar o ouvido e aprender o sotaque siberiano. Leu livros sobre Vory V Sakone (Ladrões na Lei, como é chamada a máfia russa) e sobre os significados das tatuagens de seus membros, normalmente feitas na prisão. Para os iniciados, trata-se de um currículo impresso na pele. A rosa dos ventos, ou estrela, é a principal marca, geralmente feita no peito, acima do coração, e no joelho, pois um membro deste “clã” não se ajoelha perante ninguém. O ator envergou nada menos que 43 tatuagens falsas, aplicadas como aqueles decalques encontrados nas embalagens de chicletes.
Voltando ao filme: a jovem que desmaia na farmácia vai parar no hospital. Os médicos conseguem retirar seu bebê ainda com vida, mas ela morre. Uma enfermeira, Anna (a bela e sempre competente Naomi Watts), encontra com ela um diário. Nota que está todo escrito em caracteres cirílicos e, dentro dele, há um cartão com o endereço de um restaurante russo. Nesta busca, conhece Semyon (Armin Mueller-Stahl), o dono do restaurante e chefe mafioso, seu filho, Kirill (Vincent Cassel), e o motorista e pau-pra-toda-obra Nikolai (Viggo Mortensen).
Há muitas cenas boas neste filme que merece ser visto em tela grande. Contudo, sobreviverá bem no DVD, já que a maioria das cenas acontece em locais fechados. Uma delas, de arrepiar os cabelos, mostra Nikolai numa sauna lutando nu e desarmado contra dois chechenos armados com punhais. Noutra, Nikolai apaga um cigarro na própria língua, em um dos gestos mais bad ass que já vi no cinema. Mortensen construiu uma atuação irrepreensível, com um personagem complexo e cheio de nuances bastante sutis. Um vilão para figurar entre os grandes do cinema moderno.
Semyon, o restauranteur, também está ótimo. Um criminoso violento e implacável, porém capaz de tocar violino com delicadeza e distribuir aos convidados pedaços do bolo de aniversário que sobra em pequenas caixinhas ornadas com pétalas de flores. Um doce de pessoa! Kirill é um idiota que tenta de todas as formas angariar a simpatia do pai, que o trata mal. O filho, por sua vez, idolatra (e também deseja) a figura de Nikolai, frio, eficiente e cruel.
Em termos de forma, é um filme clássico, com fotografia sóbria, sem malabarismos de câmera ou idas e vindas no tempo. É obra para ser apreciada nos detalhes e que faz pensar tão logo surgem os créditos e – com eles – o retorno da pulsação ao ritmo normal. Não perca.
Bônus: curiosidades e informação extra
Lendo sobre o assunto, descobri que a máfia russa sempre existiu, mas começou a ganhar corpo com o mercado negro, que cresceu bastante com a falta de gêneros essenciais agravada durante o governo de Leonid Brezhnev (1964-1982). Com o colapso do regime, em 1989/90, o governo distribuiu títulos de suas empresas à população. Sem dinheiro e sem nada para comprar, pessoas comuns recorriam à máfia e trocavam seus títulos por qualquer coisa, de cigarros a perfumes, de bebidas a jeans Levi's 501. E, assim, o crime adquiriu uma série de empresas de forma absolutamente legal. A partir de meados da década passada, também assumiu o controle de uma série de bancos. Ou seja, é cada vez mais difícil desatar os nós da organização. Em janeiro, porém, sofreu um duro golpe com a prisão de Semyon Mogilevich, considerado o maior chefão da máfia russa nos dias de hoje. O cara tinha nada menos que 17 passaportes e nomes falsos. Para encerrar, um lance divertido que ocorreu com Viggo. Após um dia de filmagem, ele foi direto para um bar e não tirou as tattoos falsas. Um grupo de jovens russos estava no local e ficou absolutamente apavorado com o que viu. Ou seja, a caracterização estava mesmo de primeira.
Escrito por Alessandro Pinesso às 20h47
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